Pular para o conteúdo

Estudo australiano de 18 meses: jejum intermitente iguala restrição calórica sem restrição dietética

Homem sentado à mesa pensativo com prato de comida, copo d'água e livro aberto.

Pesquisadores têm uma forma de quantificar o quanto alguém se esforça para não comer além do necessário. Essa medida é chamada de restrição dietética e registra com que frequência a pessoa em dieta vigia conscientemente o que ingere, se contém nas refeições ou analisa cada escolha alimentar.

Em diversos estudos, esse indicador aumenta quando há corte de calorias - e, quanto mais ele sobe, maior tende a ser a perda de peso.

Um ensaio australiano de 18 meses foi desenhado para investigar se esse esforço mental é, de fato, indispensável.

Mais de 200 adultos seguiram, por um ano e meio, uma entre três estratégias alimentares, incluindo jejum intermitente.

O resultado chamou a atenção: quem fez jejum perdeu tanto peso quanto quem contou calorias com cuidado - e, ainda assim, a pontuação de restrição dietética não mudou.

Comparando jejum e restrição calórica

Com duração total de 18 meses, o estudo foi liderado pela professora Leonie Heilbronn, da Universidade de Adelaide, em parceria com o Instituto de Pesquisa em Saúde e Medicina da Austrália do Sul.

Todos os participantes viviam com obesidade e tinham como objetivo emagrecer.

Os pesquisadores dividiram os voluntários em três grupos. Um deles adotou restrição calórica, reduzindo a alimentação habitual para cerca de 70% do consumo normal.

Outro grupo seguiu o jejum intermitente, enquanto o terceiro recebeu apenas orientações gerais de alimentação saudável.

No jejum intermitente, havia uma regra rígida em três dias por semana.

Nesses dias, os participantes consumiam apenas um pequeno café da manhã - aproximadamente 30% da energia diária - entre 8h e meio-dia e, depois, ficavam 20 horas apenas com água. No restante da semana, comiam como de costume.

Dietas diferentes, a mesma perda de peso

Após seis meses, a balança mostrou um padrão claro. O grupo do jejum e o grupo da restrição calórica haviam perdido, cada um, cerca de 6,8 kg. Já quem recebeu recomendações padrão emagreceu por volta de 1,8 kg.

Esse nível de emagrecimento é coerente com o que outros trabalhos já observaram.

Pesquisas anteriores indicam que jejum e corte contínuo de calorias levam a reduções parecidas ao longo do tempo, apesar de serem vividos como experiências muito diferentes no dia a dia. Um ensaio anterior relatou a mesma equivalência.

Olhando apenas para o peso, as duas abordagens pareciam empatar. A diferença apareceu no que não está na balança - no modo como as pessoas se relacionaram com a comida e no quanto precisaram se esforçar para comer menos.

A diferença estava no esforço mental

Durante todo o estudo, os participantes responderam a perguntas sobre o próprio comportamento alimentar, como se costumavam se conter à mesa e quanto controle percebiam ter diante da comida.

Os cientistas chamam esse empenho consciente de restrição dietética. Em dietas tradicionais, ela costuma aumentar.

No grupo de restrição calórica, esse controle consciente subiu - e isso ajudou a explicar a perda de peso. A melhora no autocontrolo respondeu por cerca de 15% do emagrecimento observado.

No grupo do jejum, o emagrecimento foi semelhante - porém não dependia desse mesmo autocontrolo consciente. As pontuações de restrição dietética quase não mudaram, e ainda assim o peso caiu.

Até este ensaio, ninguém havia demonstrado duas dietas atingindo o mesmo resultado na balança por caminhos mentais tão distintos.

Ainda não há consenso sobre por que o jejum funciona sem exigir esse esforço. A janela alimentar rígida pode fazer grande parte do trabalho por conta própria - ao reduzir as horas disponíveis para comer, em vez de exigir resistência activa o dia inteiro.

Segundo os pesquisadores, o mecanismo exacto segue em aberto.

O humor melhorou nas duas dietas

Ficar 20 horas sem comer pode soar como garantia de sofrimento, mas não foi isso que os voluntários relataram.

Tanto no jejum quanto na restrição calórica, as pessoas disseram que o humor melhorou, com menos sinais de depressão e maior sensação de bem-estar.

Os próprios dias de jejum não pareceram piorar o estado emocional. Mesmo sem almoço e jantar, os participantes afirmaram sentir-se bem - sem aumento de desânimo e sem queda de humor.

Como perder peso frequentemente melhora o humor, uma parte desse achado estava dentro do esperado pelos cientistas.

Uma revisão mais ampla já associou rotinas de jejum a energia mais estável e melhor funcionamento diário para algumas pessoas. Aqui, a novidade esteve menos no humor e mais no esforço necessário.

Por que o jejum pode ajudar

Para quem já tentou contar calorias e não conseguiu manter, o atractivo é evidente.

O jejum oferece uma regra simples - comer dentro de uma janela e evitar fora dela - em vez de pesar cada decisão alimentar o tempo todo. Essa simplicidade pode ser exactamente o ponto.

“Efeitos psicológicos e comportamentais têm grande influência na capacidade das pessoas de aderir às dietas”, disse Heilbronn.

Ela destacou que o jejum pode facilitar a perda de peso por vias que não dependem tanto da restrição consciente.

Nem todos enfrentam a mesma dificuldade. Algumas pessoas conseguem criar o hábito de comer menos e sustentá-lo; outras nunca chegam a consolidá-lo.

Para esse segundo grupo, Heilbronn sugere que o jejum pode abrir um caminho que a dieta convencional não conseguiu oferecer.

O que isso pode mudar

A principal contribuição deste ensaio é esclarecer melhor como duas dietas populares actuam.

Elas chegam ao mesmo número na balança, mas percorrem rotas mentais diferentes - uma baseada em controlo consciente, a outra não.

Médicos e nutricionistas podem aplicar essa informação na prática. Em vez de insistir no mesmo plano de contagem de calorias para todos, podem orientar quem não consegue aderir a esse modelo para o jejum - ajustando a dieta ao perfil de cada pessoa.

O próximo passo é identificar, antes de começar, quem tem maior chance de se dar bem em cada estratégia.

Alguns estudos iniciais sugerem que o jejum intermitente pode reduzir aquela sensação de falta de controlo alimentar que costuma derrubar quem faz dieta, o que pode ajudar a encaminhar cada pessoa para a abordagem mais adequada.

Para milhões que já desistiram de contar calorias, isso representa uma opção promissora.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário