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Skincare e rotina cosmética: o estudo do INSERM sobre bisfenol A e o efeito coquetel

Pessoa segurando frascos de cosméticos e analisando itens sobre a bancada do banheiro com plantas ao fundo.

Se você observa com cuidado o que coloca no prato e tenta fugir de alimentos ultraprocessados cheios de aditivos, talvez valha aplicar o mesmo critério ao que você espalha na pele.

Entre 2010 e 2020, a ideia de “skincare” (isto é, cuidado com a pele) cresceu de forma desproporcional - muito impulsionada pela pressão social das redes. No TikTok e no Instagram, multiplicaram-se influenciadoras (e, em menor escala, influenciadores) que recomendam, sem muita triagem, xampus “milagrosos”, séruns “revitalizantes”, cremes hidratantes e todo tipo de produto que o público acaba comprando sem fazer muitas perguntas. Em alguns casos, esses conteúdos somam dezenas de milhões de visualizações, embora as orientações dadas pela maioria desses novos gurus da beleza não se apoiem em nenhuma base científica sólida.

Skincare nas redes sociais: consumo sem freio e pouca ciência

Esse cenário virou um fenômeno social que empurrou a superconsumação de cosméticos. Foi justamente isso que motivou pesquisadores do INSERM, da Université Grenoble Alpes e do CNRS a investigar um ponto que a indústria costuma deixar em segundo plano: a exposição real a substâncias problemáticas provocada por esses produtos.

Em um estudo publicado recentemente na revista Environment International, o grupo buscou quantificar o que, na prática, chega ao organismo quando a rotina de cuidados é intensa e diária.

Sua rotina cosmética: um coquetel do inferno

Como o estudo foi conduzido em Grenoble

Para separar percepção de realidade, os pesquisadores pediram a cerca de cem mulheres jovens da região de Grenoble, com idades entre 18 e 30 anos, que reduzissem o uso de cosméticos por cinco dias. Não era para cortar tudo: a ideia era substituir os produtos habituais por alternativas sem fenóis sintéticos, parabenos, ftalatos e éteres de glicol.

Essas famílias de compostos cumprem funções diferentes: alguns atuam como conservantes (parabenos), outros como agentes multifunção (fenóis sintéticos), há ainda fixadores (ftalatos) e solventes (éteres de glicol). As duas primeiras categorias são desreguladores endócrinos conhecidos ou suspeitos de atividade desreguladora endócrina; já as duas últimas podem, em certas condições, reduzir a fertilidade masculina e desorganizar o desenvolvimento fetal em gestantes. Não é exatamente o tipo de substância que alguém quer passar no rosto, portanto.

Com o protocolo em andamento, os cientistas compararam amostras de urina coletadas antes e depois dos cinco dias. A queda dos níveis das substâncias “banidas” apareceu rapidamente: o monoetil ftalato - usado principalmente para estabilizar fragrâncias em produtos - diminuiu 22 %, e o metilparabeno caiu 30 %. Esses percentuais refletem aquilo que o corpo excreta após a exposição; assim, uma redução de 30 % em uma substância indica que a presença desse composto no organismo também diminuía na mesma proporção quando a exposição aos produtos que o contêm era reduzida.

Os pesquisadores também avaliaram o bisfenol A, outro desregulador endócrino tristemente conhecido, já que alguns estudos o associaram a riscos de câncer de mama e infertilidade. Diferentemente das substâncias anteriores, ele não aparece na lista INCI (International Nomenclature of Cosmetic Ingredients), o sistema padronizado que enumera os ingredientes de um cosmético. Proibido como ingrediente em cosméticos na França desde 2014, ele não é colocado intencionalmente nas fórmulas, mas pode migrar de embalagens plásticas. Após os cinco dias, o nível urinário de bisfenol A nas participantes despencou 39 %.

Quem deve pagar a conta sanitária?

Claire Philippat, pesquisadora do INSERM e coautora do trabalho, resume assim: “Individualmente, podemos reduzir nossa exposição - pelo menos às substâncias estudadas. É uma mensagem encorajadora. No entanto, não podemos contar apenas com mudanças de comportamento individuais para reduzir essas exposições”.

Só que, como em todo setor que quer manter clientes sem encarar regulações que apertariam margens, os gigantes dos cosméticos recorrem a uma estratégia perversa e tão antiga quanto a própria indústria: empurrar a responsabilidade para o consumidor. Trata-se de um mecanismo bastante lapidado - e que tem até nome e “pai fundador”.

Nos anos 1950, a Coca-Cola e a indústria alimentícia dos Estados Unidos financiaram campanhas inteiras em torno de uma figura de desprezo: o “litterbug”. Antes disso, o modelo econômico dominante era o das garrafas de vidro retornáveis: recolhidas, lavadas e recolocadas em circulação. O problema é que esse ciclo virtuoso impunha aos fabricantes uma logística pesada e, principalmente, um limite físico à expansão dos volumes de produção.

Para escapar dessas travas e multiplicar lucros, eles incentivaram a migração para o “descartável” (aço, alumínio e depois plástico), muito mais rentável porque o custo do lixo era externalizado. O novo arranjo, porém, trouxe um efeito colateral: as pessoas passaram a jogar as garrafas em qualquer lugar, espalhando resíduos por ruas, parques, beiras de estrada e rios.

A fim de evitar atritos com autoridades e legisladores, empresas do setor, incluindo a Coca-Cola, financiaram em 1953 a criação da Keep America Beautiful. Por fora, uma entidade “cidadã”; na prática, a missão era fazer lobby e moldar a opinião pública para convencer que a poluição por embalagens era um tema de civismo, não de desenho industrial.

A indústria do tabaco refinou a mesma lógica logo depois, levantando durante trinta anos as bandeiras do “escolha individual” e da “liberdade do fumante” para adiar regulações sérias. A lição foi absorvida por outros setores com a consciência pesada (petróleo, indústria alimentícia etc.): o problema está sempre do lado do consumidor - nunca do outro.

Na França, a FEBEA (Fédération des entreprises de la beauté), braço político e diplomático dos grandes grupos de beleza, segue o mesmo roteiro. Ao responder ao estudo do INSERM, ela afirma que as substâncias citadas são “submetidas a controles regulatórios rigorosos” e que a presença de BPA em traços é aceitável quando for “tecnicamente inevitável” e não houver risco comprovado. Um gaslighting industrial grosseiro que dá para traduzir como: “Se você tem medo, é porque não entende a ciência (a nossa)”.

O “efeito coquetel” nos cosméticos e o que a lei não exige

A FEBEA sabe perfeitamente que não é obrigada a testar o efeito cumulativo das substâncias apontadas - e é exatamente aí que está o problema central levantado por este estudo. O chamado “efeito coquetel” descreve a sinergia entre moléculas que, quando reunidas, tornam-se potencialmente mais nocivas do que quando avaliadas isoladamente.

É isso que pode acontecer na prática de uma rotina de cuidados: os produtos usados no dia a dia se misturam, mas nem os fabricantes nem os reguladores são legalmente obrigados a testar e avaliar de forma sistemática essa mistura, na qual várias substâncias podem se potencializar. Assim, a FEBEA consegue sustentar - sem ser confrontada pela lei - que os produtos são seguros: enquanto ninguém mistura as provetas, o risco “não existe”.

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