Pessoas que consomem cannabis com regularidade costumam ter cinturas menores do que quem não usa - um achado tão repetido que os investigadores passaram a encará-lo com seriedade.
O que ninguém tinha feito, porém, era testar qual parte da planta explica isso. Um estudo recente mostrou que o composto mais famoso da cannabis - o mesmo que provoca o “barato” - não é o responsável principal pelo efeito metabólico.
Uso de cannabis e peso corporal
Essa contradição está presente há anos na investigação em saúde pública.
Levantamentos populacionais seguem mostrando que utilizadores regulares de cannabis apresentam menor peso corporal, menor circunferência da cintura e níveis mais baixos de insulina em jejum quando comparados a não utilizadores.
Um artigo com base numa amostra de quase 5.000 adultos norte-americanos descreveu esse padrão com clareza, mesmo depois de os autores controlarem fatores como alimentação e atividade física. Ainda assim, não surgiu uma explicação convincente.
O paradoxo é evidente: a cannabis aumenta o apetite - utilizadores frequentes chegam a consumir várias centenas de calorias a mais por dia do que não utilizadores. Então, por que os corpos deles tendem a manter-se mais magros e a apresentar taxas menores de diabetes?
Testes em camundongos obesos
O Dr. Nicholas V. DiPatrizio, professor de ciências biomédicas na School of Medicine da University of California, Riverside (UCR), passou anos a perseguir essa pergunta.
A equipa dele desenhou um experimento com camundongos obesos. Os animais receberam uma dieta rica em gordura e açúcar, concebida para imitar aquilo que muitos norte-americanos efetivamente consomem. Os camundongos ganharam peso. O controlo do açúcar no sangue piorou.
Depois, os investigadores dividiram os animais em grupos. Um deles recebeu delta-9 THC puro, o composto intoxicante mais associado à cannabis.
O outro recebeu um extrato da planta inteira com a mesma dose de THC, além de um conjunto de outros canabinoides naturalmente presentes.
THC e extrato levam à perda de peso
Um terceiro grupo, tratado apenas com a solução veículo usada para dissolver os fármacos, funcionou como controlo.
Por trás desse desenho simples, havia uma pergunta direta: o THC, sozinho, é capaz de produzir o efeito metabólico?
Após duas semanas de tratamento, os camundongos dos dois grupos que receberam cannabis estavam visivelmente mais magros do que os do grupo controlo.
A dose foi moderada, o impacto no apetite foi discreto, e a perda de peso apareceu de forma consistente nas leituras de composição corporal recolhidas pela equipa.
Se a análise se limitasse à redução de gordura, o THC pareceria suficiente. O THC puro emagreceu os camundongos tanto quanto o extrato completo.
Onde os efeitos se separaram
Os indicadores metabólicos, no entanto, contaram outra história. Quando os investigadores aplicaram testes de tolerância à glicose, os camundongos que receberam apenas THC não apresentaram melhoria.
O açúcar no sangue ainda subia e permanecia alto - o retrato clássico do controlo glicémico comprometido que caracteriza a diabetes tipo 2.
Já os camundongos que receberam o extrato integral melhoraram. As curvas de glicose deles ficaram mais próximas das de um animal magro e saudável.
Como a cannabis altera a sinalização metabólica
Para entender o motivo, a equipa examinou a “conversa” química entre o tecido adiposo e o pâncreas.
Células de gordura libertam hormonas como leptina e adiponectina, que sinalizam ao pâncreas quanto de insulina deve ser produzida.
Na obesidade, essa comunicação falha. Os sinais tornam-se mais difíceis de interpretar, o açúcar no sangue começa a subir e, com o tempo, o sistema pode evoluir para diabetes tipo 2.
A equipa do Dr. DiPatrizio mediu hormonas específicas que circulam entre o tecido adiposo e o pâncreas.
Nos camundongos que receberam o extrato completo, esses marcadores deslocaram-se na direção de níveis mais saudáveis. Nos animais tratados apenas com THC, eles não se alteraram.
Para além do THC
O extrato continha mais do que THC. Ele também trazia tetrahidrocanabivarina, canabigerol, canabinol e CBD - canabinoides minoritários que vêm atraindo interesse crescente na pesquisa.
Um ensaio clínico humano de 2016, com 62 pacientes com diabetes tipo 2, observou que a tetrahidrocanabivarina, tomada duas vezes por dia durante 13 semanas, reduziu os níveis de açúcar no sangue e melhorou a forma como o pâncreas lidava com a glicose. O THC não fez nenhuma das duas coisas.
“THC alone is not responsible for the metabolic benefits associated with cannabis use,” disse o Dr. DiPatrizio. “Other compounds in the plant appear to play a critical role.”
O caminho para tratamentos mais seguros
Os investigadores não identificaram um composto único como causa. O extrato era uma mistura com muitos deles.
Agora, o laboratório do Dr. DiPatrizio pretende fracionar o extrato, analisando substância por substância.
“We’re not suggesting people should use cannabis to manage weight or diabetes,” disse o Dr. DiPatrizio.
O objetivo é chegar a uma terapia direcionada que não provoque intoxicação.
Implicações mais amplas do estudo
Até este estudo, ninguém tinha separado de forma limpa os benefícios metabólicos da cannabis do seu principal composto psicoativo. Agora existe evidência em animais vivos.
A vantagem que utilizadores de cannabis parecem ter não vem do THC.
Trabalhos anteriores em roedores já apontavam nessa direção - a tetrahidrocanabivarina, isoladamente, melhorou o controlo do açúcar no sangue em camundongos obesos sem alterar o peso corporal.
A nova investigação encaixa essas peças dentro de um mesmo animal vivo.
Se estudos futuros confirmarem quais compostos restauram a comunicação entre gordura e pâncreas, desenvolvedores de medicamentos poderão procurar uma terapia “limpa” para diabetes tipo 2 que evite por completo os efeitos intoxicantes.
Depois de duas décadas a investigar o paradoxo da cannabis, os cientistas finalmente têm uma história biológica plausível para testar em pessoas.
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