Passe por qualquer subúrbio descolado e é bem provável que você encontre um novo estúdio de “bem-estar” oferecendo banhos de gelo ou “terapia de contraste” (a combinação de sauna com banho de gelo).
Basta rolar as redes sociais para aparecerem influenciadores pregando o evangelho do mergulho no frio com um entusiasmo quase sectário.
Os banhos de gelo viraram moda. O que antes era mais comum entre atletas de alto rendimento, a imersão em água fria agora é um modelo de negócio em rápida expansão - vendida como recuperação, disciplina e terapia, tudo ao mesmo tempo.
Só que os supostos ganhos são discutíveis e, mais importante, banhos de gelo podem trazer riscos à saúde - sobretudo para quem tem pouca experiência.
Da Roma Antiga aos dias de hoje
A imersão em água fria não é uma ideia nova.
O “frigidarium” - uma sala com uma piscina ou banheira de mergulho frio - estava presente na maioria das termas romanas.
Há décadas, atletas recorrem à imersão em água fria, como nadar em água gelada, para ajudar na recuperação.
Nos últimos anos, porém, com a multiplicação de centros comerciais de mergulho frio, houve uma explosão no uso recreativo de banhos de gelo.
Muita gente também está montando o próprio banho de gelo em casa. O mercado global de banheiras para mergulho frio foi avaliado em cerca de US$338 milhões em 2024 e a projeção é chegar a quase $483 milhões até 2033.
Nas redes, influenciadores posam serenos, meditando em meio ao desconforto, e afirmam que isso melhora a saúde mental, a serotonina, a testosterona e o metabolismo. Mas as evidências sustentam tudo isso?
Banhos de gelo podem diminuir a dor muscular após treinos intensos, mas o efeito costuma ser modesto e de curta duração.
Alguns estudos indicam que uma única exposição à imersão em água fria pode melhorar o humor em jovens saudáveis, porém outras pesquisas não encontram esses benefícios.
A maior parte das promessas sobre saúde mental, testosterona e perda de peso não tem respaldo em evidências robustas. Em vez disso, são relatos anedóticos, amplificados por influenciadores.
O que acontece em um banho de gelo?
Em estabelecimentos comerciais, quem paga a sessão geralmente pode entrar e sair do banho de gelo como preferir durante o horário reservado. A temperatura desses banhos costuma variar entre 3°C e 15°C. Em geral não há gelo de verdade na banheira, embora algumas pessoas coloquem blocos de gelo quando fazem isso em casa.
Empresas que oferecem banhos de gelo nem sempre supervisionam ativamente os clientes ou controlam o tempo de permanência na água. Em muitos casos, deixam a autorregulação por conta da pessoa, partindo do pressuposto de que ela saberá sair antes de ultrapassar os próprios limites.
Então quais são os riscos?
A imersão em água fria desencadeia uma resposta fisiológica intensa. Ao entrar em água abaixo de 15°C, o corpo pode entrar em choque térmico pelo frio. É comum a pessoa “puxar” o ar, e a respiração ficar acelerada e difícil de controlar. A frequência cardíaca dispara. A pressão arterial sobe.
Ficar tempo demais na água pode levar à hipotermia, quando a temperatura central do corpo cai a níveis perigosamente baixos.
Em água fria, os tremores podem começar em questão de minutos. Confusão mental ou desmaio são sinais mais graves de que a hipotermia pode estar se instalando.
Em algumas situações, essa resposta de choque ao frio pode desencadear um infarto ou um AVC - especialmente se houver alguma condição não diagnosticada que afete o coração, os vasos sanguíneos ou o cérebro.
Já em 1969, pesquisadores observaram que até nadadores experientes poderiam ter dificuldades após poucos minutos em água fria. Os participantes foram imersos, totalmente vestidos, em água a 4.7°C e solicitados a nadar como se estivessem tentando alcançar um local seguro. Alguns desenvolveram desconforto respiratório grave e precisaram parar de nadar em apenas 90 segundos, muito antes de qualquer queda mensurável da temperatura corporal central.
Mesmo depois de sair da água, a temperatura central pode continuar caindo - um fenômeno em que o resfriamento prossegue após a exposição. Por isso, problemas como colapso podem ocorrer até depois que a pessoa já deixou o banho.
E não é só quem tem problemas de saúde: até jovens saudáveis podem ser pegos de surpresa. O corpo humano não foi feito para suportar água quase congelante por períodos prolongados.
Recentemente, um de nós (Sam Cornell) precisou prestar primeiros socorros em um local de banhos de gelo em Sydney. Um rapaz jovem desabou após permanecer dez minutos em um banho de gelo. Ele tremia de forma incontrolável e estava claramente sofrendo os efeitos do choque ao frio.
A exposição ao frio também pode causar danos de longo prazo em nervos e vasos sanguíneos das mãos e dos pés, chamada lesão por frio sem congelamento. Isso é mais provável quando alguém passa um período prolongado imerso em água fria. Sintomas como dormência, dor e sensibilidade ao frio podem persistir por anos.
6 dicas para usar banho de gelo com mais segurança no lazer
A tendência do banho de gelo se encaixa em um movimento mais amplo de bem-estar, promovido especialmente a homens jovens, em que o desconforto é reembalado como disciplina. Aguente a dor. Domine o seu corpo. Se você se sente péssimo, então deve estar fazendo certo.
Mas por trás da empolgação existe uma verdade menos atraente. Banhos de gelo podem ser perigosos.
Recomendamos cautela, mas, se você decidir experimentar um banho de gelo, leve a prática a sério e siga estas orientações para reduzir o risco de dano.
- Converse com seu médico: faça uma avaliação antes. Se você ou sua família tiverem qualquer risco cardíaco, de AVC ou respiratório, não faça
- Conheça seus limites: estar em boa forma não protege contra o choque ao frio
- Comece aos poucos: inicie com banhos curtos alternando água morna e fria antes de fazer a imersão completa
- Nunca vá sozinho: tenha sempre alguém com você, principalmente se for iniciante em banhos de gelo
- Seja breve e controle a temperatura: limite as sessões a 3–5 minutos e lembre-se de que problemas ainda podem aparecer depois que você sair
- Reconheça os sinais de perigo: sintomas como tremores, dormência e confusão podem parecer “parte da experiência” para quem está decidido a se forçar. Mas eles podem ser sinais de hipotermia.
Samuel Cornell, doutorando em Saúde Pública e Medicina Comunitária, School of Population Health, UNSW Sydney, e Michael Tipton, professor de Fisiologia Humana e Aplicada, University of Portsmouth
Este artigo foi republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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