Durante muito tempo, o peso de um pai foi encarado como um assunto que dizia respeito apenas a ele. Isso poderia alterar o risco de doenças ou influenciar como ele se sente no dia a dia, mas quase ninguém se perguntava se esse fator também poderia repercutir na saúde dos futuros filhos.
Agora, cresce o conjunto de evidências de que o peso e os hábitos de um homem antes mesmo da concepção podem deixar sinais biológicos nos espermatozoides, capazes de alcançar o metabolismo da criança - e, de forma animadora, esses sinais parecem poder ser revertidos.
O papel do peso do pai
Por anos, as pesquisas sobre onde começa a obesidade infantil voltavam sempre ao mesmo ponto: as mães - a alimentação, o peso, os longos meses de gestação.
Enquanto isso, os pais apareciam na borda da cena, frequentemente tratados como coadjuvantes. Eram figuras de fundo numa narrativa centrada nas mães.
Uma revisão publicada nesta primavera defende o oposto: os pais devem ocupar o centro, e não a margem.
O trabalho foi liderado por Matthew J. Landry, professor assistente de saúde populacional e nutricionista e dietista credenciado na University of California, Irvine (UCI).
Em colaboração com John James Parker, da Northwestern University, Landry examinou uma década de estudos para entender de que modo os pais podem influenciar o peso dos filhos.
Genética e risco de obesidade
A obesidade já está profundamente presente na vida nos Estados Unidos, e uma projeção bastante citada estima que mais de 250 milhões de pessoas no país terão excesso de peso até 2050.
O caminho mais direto dessa influência paterna passa pelo que o pai transmite no momento da concepção, incluindo metade dos genes da criança.
A genética responde por uma parcela importante do risco de obesidade - algo entre 40 e 70%.
Só que, para além dos genes, a obesidade paterna parece deixar marcas químicas no esperma - como “interruptores” que, segundo se acredita, interferem em como os genes da criança se comportam nos primeiros dias do desenvolvimento.
Essas marcas também se associam a alterações mensuráveis na qualidade do esperma.
Em comparação com homens com peso saudável, homens com obesidade tendem a apresentar menor contagem de espermatozoides, menor mobilidade e mais quebras no DNA transportado pelos espermatozoides.
Grandes estudos indicam que filhos de pais com obesidade têm maior probabilidade de desenvolver obesidade, independentemente do peso da mãe.
Os danos podem ser revertidos
É aqui que o panorama fica mais promissor. Até pouco tempo, as marcas deixadas pela obesidade no esperma pareciam uma herança imutável. Mas não são.
Quando homens perdem peso, o padrão químico dos espermatozoides começa a se reconfigurar.
Em um estudo, homens que passaram por cirurgia para perda de peso apresentaram mudanças rápidas nas marcas químicas do esperma - sobretudo em regiões ligadas a genes que ajudam a regular o apetite - em cerca de um ano após o procedimento.
Mudanças do quotidiano também fazem diferença. Alimentação de melhor qualidade e mais movimento físico favorecem o esperma de formas que vão além da perda de peso em si.
Como o organismo produz novos espermatozoides ao longo de toda a vida masculina, o intervalo de três a seis meses antes da concepção ganha destaque como uma janela pré-concepção, em que os hábitos do pai deixam uma marca mais profunda.
Pesquisadores já suspeitavam há muito tempo que os pais tinham um papel antes da concepção. O que esta revisão detalha é como essa influência atua no nível de uma única célula - e como ela aparenta ser reversível.
Ganho de peso durante a paternidade
O início da paternidade costuma vir acompanhado de alguns centímetros a mais na cintura.
Ao longo de vários estudos de acompanhamento prolongado, observa-se que o peso, a gordura corporal e a circunferência da cintura dos homens tendem a aumentar desde a gestação da parceira até o primeiro ano após o nascimento.
Os motivos são bem conhecidos por qualquer pai exausto: menos sono, mais refeições por entrega em vez de comida feita em casa, a academia vai ficando para depois, e o stress aumenta.
As crianças prestam atenção em tudo. O que o pai coloca no prato, como belisca, o quanto se movimenta - elas observam e imitam. A alimentação do pai ajuda a prever o que o filho vai comer.
Pais que cozinham, partilham as refeições e brincam de forma ativa costumam criar crianças com dietas melhores e mais atividade física.
Stress e circunstâncias de vida
Os hábitos de um pai não surgem isoladamente. Renda, segurança do bairro, existência de comida suficiente em casa - tudo isso pesa sobre a saúde dele e, mais adiante, sobre a saúde dos filhos.
A saúde mental atravessa todo esse cenário. Depressão e obesidade alimentam uma à outra: uma relação de duas vias confirmada num grande estudo com pessoas acompanhadas ao longo do tempo, em que cada condição aumentou a probabilidade da outra.
E a depressão de um pai raramente se limita a ele. Estudos sugerem que ela pode elevar a chance de a parceira também enfrentar desafios de saúde mental.
Ela também pode dificultar que a família mantenha consultas de saúde de rotina.
Além disso, a depressão pode reduzir o envolvimento do pai no cuidado diário, diminuindo a participação direta que se associa a hábitos mais saudáveis e a menor risco de obesidade nas crianças.
Implicações mais amplas do estudo
Tudo isso oferece aos profissionais de saúde um novo foco de atuação. Por muito tempo, as orientações pré-concepção e as consultas de pré-natal ficaram concentradas nas mães - e a revisão argumenta que as clínicas deveriam incluir os pais também.
“Historicamente, os pais foram ignorados”, disse Landry, e convidá-los desde as fases iniciais cria espaço real para ajudar.
Licenças remuneradas e horários flexíveis dão aos pais condições de cozinhar, movimentar-se e criar vínculo, mas os Estados Unidos não garantem uma licença familiar remunerada nacional.
Hoje, a saúde do pai é reconhecida como parte da equação desde o início, e não apenas como uma nota de rodapé em relação à saúde materna.
A boa notícia é que esses efeitos não parecem ser fixos. As pesquisas sugerem que homens que melhoram a própria saúde antes da concepção podem reduzir a probabilidade de os filhos enfrentarem obesidade.
Isso dá aos pais um papel relevante - e muitas vezes negligenciado - na construção da saúde a longo prazo dos seus filhos.
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