Tinta corporal de ocre pode ter servido como uma espécie de protetor solar pré-histórico, ajudando humanos antigos a atravessar um aumento abrupto de radiação ultravioleta (UV) há cerca de 41.000 anos.
A ideia, apresentada recentemente como uma nova hipótese por uma equipa internacional de geocientistas e antropólogos, foi liderada por investigadores da University of Michigan.
Evento de Laschamp e o colapso do campo geomagnético
O trabalho reconstrói o ambiente espacial global no fim do Último Período Glacial e sugere que um “soluço” repentino no campo magnético da Terra, ocorrido há dezenas de milhares de anos, afetou de forma profunda o escudo natural do planeta contra a atividade solar.
Os cientistas já tinham conhecimento desse episódio geomagnético marcante, conhecido como evento de Laschamp: um período em que os polos magnéticos entraram em instabilidade e passaram por uma inversão parcial e breve, antes de regressarem às posições anteriores.
O que o novo modelo acrescenta é um retrato mais detalhado do processo. Ao longo de milhares de anos, enquanto o evento se desenrolava, a intensidade do campo geomagnético terrestre despencou, chegando a apenas 10% do valor atual.
Em paralelo, as regiões onde as linhas de campo magnético convergem (os polos) alargaram-se e inclinaram-se em mais de 75 graus em relação ao eixo de rotação da Terra.
Nesse cenário, o Polo Sul deslocou-se para longe da Antártida e passou a posicionar-se sobre a Austrália e a Nova Zelândia, enquanto o Polo Norte saiu do Ártico e “passeou” pela Eurásia Ocidental, pelo Norte de África e pelo noroeste do Saara.
“Vastas extensões de ambos os hemisférios foram envolvidas por amplas regiões de linhas de campo aberto, desencadeando uma barragem substancial de precipitação auroral à escala global”, escrevem os autores.
Por que mais auroras podem significar mais UV
É aqui que a hipótese do “protetor solar” entra como peça possível do quebra-cabeça.
As auroras acontecem quando partículas carregadas vindas do Sol são conduzidas pelas linhas do campo magnético terrestre em direção aos polos; ali, essas partículas são “depositadas” e interagem com a atmosfera.
Quando essas linhas de campo enfraquecem, porém, a radiação cósmica consegue penetrar na atmosfera mais cedo e em maior profundidade - algo potencialmente desastroso para a camada de ozônio (ozônio) abaixo. Com essa barreira protetora comprometida, mais radiação UV nociva passa a atingir a superfície.
Durante o enfraquecimento associado ao evento de Laschamp, se certas regiões do mundo passaram a receber mais UV, é provável que humanos antigos - incluindo a nossa espécie e os Neandertais - tenham sentido os efeitos.
O ocre como possível protetor solar pré-histórico
Há algum tempo, investigadores sugerem que adaptações específicas de Homo sapiens ao evento de Laschamp podem ter ajudado a nossa espécie a sobreviver em circunstâncias em que outros humanos não conseguiram.
O novo estudo, liderado pelo físico espacial Agnit Mukhopadhyay, soma-se a essa linha de raciocínio.
“No estudo, combinámos todas as regiões em que o campo magnético não estaria ligado, permitindo que a radiação cósmica, ou qualquer tipo de partículas energéticas do Sol, se infiltrasse até ao solo”, explica Mukhopadhyay.
Os autores reconhecem o carácter especulativo da hipótese, mas salientam que várias áreas possivelmente expostas a um aumento de UV coincidem de perto com mudanças no comportamento humano de há mais de 40.000 anos. Entre essas mudanças estariam o aparecimento de mais ferramentas voltadas para ajustar e confeccionar roupas, um aumento na produção de arte rupestre e o uso de ocre - substância que alguns estudos apontam como um protetor solar natural usado na Pré-história.
Em conjunto, esses comportamentos podem indicar uma tentativa de reduzir a exposição aos raios UV. Ainda hoje, por exemplo, a comunidade Himba, no norte da Namíbia, utiliza o ocre como protetor solar, e povos indígenas australianos mantêm costumes semelhantes.
“Há alguns testes experimentais que mostram que [o ocre] tem propriedades semelhantes às de protetor solar. É um protetor solar bastante eficaz e também existem populações etnográficas que o usaram principalmente para esse fim”, afirma a antropóloga Raven Garvey, da University of Michigan.
“O aumento da sua produção e a sua associação sobretudo com humanos anatomicamente modernos (durante o Laschamp) também sugere que as pessoas o estariam a utilizar com esse objetivo.”
Interpretação com cautela e o debate sobre os Neandertais
A coincidência temporal é, sem dúvida, curiosa, mas o registo fóssil é incompleto e precisa de leitura cautelosa. Provavelmente, múltiplos fatores contribuíram tanto para a sobrevivência da nossa espécie quanto para o desaparecimento de outros parentes.
No caso dos Neandertais, por exemplo, o seu desaparecimento coincide em grande medida com o evento de Laschamp, o que levou alguns a propor que esse episódio teria sido o responsável por eliminar os nossos familiares mais antigos.
Hoje, entretanto, já existe evidência arqueológica de que Neandertais produziam ferramentas para roupas, utilizavam ocre e faziam arte em cavernas. Talvez não tenham levado essas práticas ao mesmo grau de sofisticação de Homo sapiens, mas também podem ter estado a adaptar-se às condições da época. Historicamente, cientistas tendem a subestimar os nossos primos antigos e as capacidades que possuíam.
Em 2021, a arqueóloga Anna Goldfield publicou um texto na revista Sapiens defendendo que “manchetes a proclamar que uma troca de polo magnético acabou com os nossos familiares antigos simplificam em demasia o sistema tremendamente complexo em que Neandertais e os nossos antepassados Homo sapiens viviam”.
O novo estudo foi publicado na Science Advances.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário