Um novo estudo relacionou níveis mais altos da gordura que se acumula ao redor dos órgãos a um envelhecimento cerebral mais acelerado, tendo a glicose e a insulina como prováveis mediadoras dessa ligação.
A pesquisa, conduzida por uma equipa da Ben-Gurion University of the Negev (BGU), em Israel, indica que diminuir a gordura visceral pode ajudar a proteger contra a atrofia cerebral.
Tal como acontece com outras partes do corpo, o cérebro não envelhece obrigatoriamente a um ritmo fixo: o “desgaste” pode aumentar ou diminuir conforme diversos fatores. Quando o envelhecimento cerebral se acelera, costuma haver uma queda mais rápida no desempenho mental e um risco maior de doenças cerebrais.
O que o estudo aponta sobre gordura visceral e envelhecimento cerebral
O ponto central deste trabalho é que o envelhecimento cerebral pode ser influenciado de forma indireta pela gordura visceral, em particular. Já a gordura subcutânea - que se acumula em grande parte do corpo e tem o maior impacto no quanto pesamos - não apresentou ligação com a saúde do cérebro.
"Os nossos achados demonstram que a exposição de longo prazo a uma adiposidade visceral mais elevada está associada tanto a atrofia cerebral acelerada como a um desempenho cognitivo mais baixo, enquanto a redução sustentada de gordura visceral, alcançada por meio de intervenções de estilo de vida, prediz a preservação da estrutura cerebral e da cognição na fase final da meia-idade", escrevem os investigadores no artigo publicado.
Como a pesquisa foi feita (ressonância magnética, testes cognitivos e biomarcadores)
Os dados do estudo baseiam-se em exames de ressonância magnética realizados em 533 adultos (na maioria homens). Eles foram acompanhados por diferentes períodos, de 5 a 16 anos, depois de participarem de um entre quatro ensaios clínicos dietéticos distintos.
Além das medidas de gordura visceral e de volume cerebral obtidas nas imagens, a equipa aplicou testes de avaliação cognitiva para acompanhar ao longo do tempo as capacidades mentais dos participantes. Também foram recolhidas amostras de sangue para medir vários biomarcadores.
Ao longo dos períodos de acompanhamento, uma menor quantidade de gordura visceral esteve associada a pontuações melhores nos testes cognitivos, a maior volume cerebral e volume de substância cinzenta, além de resultados superiores no Hippocampal Occupancy Score - uma métrica desenvolvida especificamente para avaliar atrofia cerebral.
Os investigadores observaram ainda que uma maior quantidade de gordura visceral se relacionou a uma expansão mais rápida dos ventrículos cerebrais, um marcador de envelhecimento cerebral. A gordura subcutânea, por sua vez, não mostrou nenhuma dessas relações.
Glicose, insulina e a hipótese por trás da associação
Por que essa ligação poderia acontecer? Os exames de sangue indicaram que níveis elevados de açúcar no sangue se associaram a atrofia cerebral ao longo do tempo, sugerindo que um desequilíbrio na glicemia contribuiu para o dano observado. Trabalhos anteriores já conectaram gordura visceral a resistência à insulina e a demência.
Há também um dado animador: entre os participantes, aqueles que mais reduziram a gordura visceral nos ensaios dietéticos originais foram os que apresentaram volumes cerebrais mais preservados mais tarde na vida. Somando isso ao elo com a glicemia, tudo indica que dieta e atividade física podem beneficiar a cabeça tanto quanto a barriga.
"As descobertas apontam o controlo da glicose e a redução da gordura abdominal visceral como metas mensuráveis, modificáveis e alcançáveis na meia-idade - com potencial real para desacelerar a degeneração cerebral e reduzir o risco de declínio cognitivo", afirma a epidemiologista Iris Shai, da BGU.
Embora o estudo não comprove que reduzir gordura visceral consiga, por si só, desacelerar o envelhecimento cerebral, ele sustenta fortemente essa possibilidade. Vale notar ainda que a amostra foi composta sobretudo por homens e, em grande parte, por pessoas com excesso de peso - por isso, serão necessários mais estudos para verificar o quanto esses resultados se aplicam de forma ampla.
Diante do que já se sabe sobre envelhecimento cerebral e gordura visceral, trata-se de mais um motivo para manter uma alimentação equilibrada e uma rotina ativa. Os investigadores também defendem maior consciencialização de que mirar especificamente a gordura visceral - em vez de apenas acompanhar a perda de peso - pode trazer ganhos reais para a saúde.
"O peso, por si só, não é um marcador sensível das profundas mudanças metabólicas que ocorrem no corpo", diz a epidemiologista Dafna Pachter, da BGU.
"Descobrimos que, mesmo quando a perda de peso é modesta, reduções sustentadas de gordura visceral - medidas ao longo de todo o período - estão associadas à preservação da estrutura cerebral e a uma taxa mais lenta de atrofia."
A pesquisa foi publicada na Nature Communications.
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