Um cálculo simples pode cumprir melhor do que o índice de massa corporal (IMC) a tarefa de sinalizar o risco de pressão alta, segundo um novo estudo.
Uma equipa da Finlândia e dos Estados Unidos propõe que a relação cintura-altura (RCA) tem maior precisão para prever quem está em risco de pressão arterial elevada e de hipertensão estabelecida.
O IMC é usado há muito tempo como ferramenta de triagem para excesso de peso e obesidade, mas a sua precisão vem sendo posta em dúvida. Como obesidade e pressão alta estão intimamente ligadas, o IMC pode não ser fiável para antecipar o risco de problemas cardiovasculares associados, desencadeados pelo excesso de gordura corporal e pela hipertensão.
"Depois de demonstrar associações consistentes em diferentes origens étnicas, faixas etárias e ciclos de inquéritos, é seguro concluir que estimativas de massa de gordura baseadas na RCA fornecem um indicador mais preciso e clinicamente relevante do risco de hipertensão", afirma a epidemiologista Mahidere Ali, da Universidade do Leste da Finlândia.
"A RCA é uma ferramenta simples e escalável, capaz de reforçar a triagem precoce e melhorar a deteção do risco cardiovascular relacionado à adiposidade."
Relação cintura-altura (RCA) vs IMC: por que comparar
Especialistas definiram recentemente três categorias para a RCA: gordura normal, gordura alta e gordura em excesso. Neste trabalho, os investigadores quiseram verificar se essas categorias eram melhores do que o IMC para identificar pressão arterial elevada e hipertensão.
Com base numa análise de dados de 19.124 adultos e crianças com 12 anos ou mais, foi isso mesmo o que se observou - sobretudo no que diz respeito à categoria de gordura em excesso e à hipertensão estabelecida.
O que os dados mostram sobre pressão arterial elevada e hipertensão
Entre os participantes classificados com gordura em excesso, a probabilidade de apresentar pressão arterial elevada (120/70 mm Hg ou acima, neste estudo) foi 91% maior do que entre aqueles no nível normal. Já a probabilidade de hipertensão (140/90 mm Hg ou acima, neste estudo) foi 161% maior em comparação ao grupo normal.
No caso do IMC, o vínculo foi bem mais fraco: participantes identificados como com excesso de peso ou obesidade tiveram, respetivamente, 71% e 130% mais probabilidade de pressão arterial elevada, mas não se verificou uma associação semelhante para hipertensão entre os participantes nessas classificações.
Os dados analisados representam apenas um recorte num momento específico, e os participantes não foram acompanhados ao longo do tempo pelos investigadores. Ainda assim, os resultados sugerem que um cálculo simples com medida de cintura e altura pode ser uma forma rápida de identificar pessoas com maior probabilidade de apresentar problemas de pressão arterial - o que permitiria iniciar mais cedo tratamentos e mudanças.
Por que o IMC pode falhar - e onde a RCA pode melhorar
Um dos principais problemas do IMC é quantificar o peso em relação à altura sem separar massa de gordura de massa muscular. Essa distinção é relevante por vários motivos ligados ao risco para a saúde, e é um dos pontos em que a RCA tende a trazer vantagem.
"O IMC não conseguiu detetar o efeito independente da adiposidade, provavelmente porque não isola a influência de confusão da massa muscular, que pode inflar a sua associação com a pressão arterial em fases mais precoces, ao mesmo tempo que obscurece a sua relação com a hipertensão estabelecida", diz Ali.
Por exemplo, mais massa de gordura pode elevar o risco de diabetes tipo 2, enquanto mais massa muscular pode reduzir esse risco. Entender por que alguém está com peso acima do ideal faz diferença.
Trabalhos anteriores já indicaram que a RCA pode ajudar a prever risco de diabetes tipo 2 e de doença hepática gordurosa; por isso, mesmo neste momento, o indicador já tem uma reputação sólida como medida médica útil.
Embora o IMC continue a ser, por ora, a ferramenta-padrão de triagem para obesidade e hipertensão, existe uma calculadora online de relação cintura-altura que permite obter a própria RCA com base em idade e sexo.
"O sistema de saúde dos Estados Unidos está atualmente sobrecarregado tanto pela hipertensão não controlada quanto pela obesidade não gerida", escrevem os investigadores no artigo publicado.
"A RCA é uma ferramenta barata e universalmente acessível que poderia substituir o IMC na triagem, prevenção, diagnóstico e manejo da obesidade e das suas sequelas de DCV."
A pesquisa foi publicada no The Journal of Nutrition.
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